PRÁTICAS QUE PODEM DESTRUIR UM PEQUENO NEGÓCIO DE CONFECÇÃO

 

Por Soeli de Oliveira

 

Com o objetivo de contribuir na busca de soluções para os micro e pequenos empreendimentos que atuam no setor de confecção, disponibilizamos neste artigo um conjunto de recomendações – dicas simples, porém objetivas e eficazes – para reduzir custos, ampliar as vendas, melhorar os produtos e aumentar a rentabilidade.

 

A maioria dos que começam um pequeno negócio de confecção são muito empreendedores, mas pouco empresários. Pode-se até afirmar que muitos estão empresários, mas não pensam e não agem como tal.

 

Altos e baixos nos negócios não é novidade! Alguns são frutos de interferências conjunturais, como a cotação do câmbio; outras, resultados de mudanças estruturais, por exemplo, a migração da produção para novas regiões, como nordeste ou até mesmo para a China.  O fato é que toda mudança traz ameaças, mas também oportunidades. Em uma situação de desiquilíbrio, as pessoas e as empresas se movimentam para encontrar soluções, gerando aprendizado e, consequentemente, melhorias. 

 

Apesar de todo o apoio oferecido pelas entidades de classe e por outras organizações, realizar as mudanças necessárias requer atitude por parte do empreendedor, pois ele é o principal responsável pelo seu empreendimento.

 

 

GESTÃO ESTRATÉGICA

 

 

1 - NÃO REALIZAR PLANEJAMENTO ESTRATÉGICO

 

 

Priorizar o “fazejamento” relegando a um segundo plano o planejamento. Imitar os grandes líderes do mercado é quase sempre um péssimo negócio. Trace o seu próprio caminho, confrontando suas fortalezas e debilidades com as oportunidades e ameaças do mercado. Não é por serem as maiores, que elas, as empresas líderes, são as melhores. Descubra o caminho mais adequado para o seu empreendimento.

 

 

2 - INVESTIR POUCO EM INOVAÇÃO E EM NOVAS TECNOLOGIAS

 

Acreditar que continuará resolvendo problemas novos com práticas velhas. Problemas novos requerem novas soluções.

 

A inovação na indústria de confecções está diretamente ligada às questões de desenvolvimento de produto, sendo peça importante nas estratégias das empresas que buscam se destacar no mercado.

 

Um dos grandes erros de alguns empresários do setor é não buscar novas tecnologias, na maioria das vezes, por falta de conhecimento da sua equipe. O processo de inovação é constituído por meio da participação e sugestões de toda a equipe, desde o mais simples funcionário.

 

Planejar investimentos em máquinas, em equipamentos e em novos materiais e processos é fundamental para as empresas, de forma a adicionar inovações tecnológicas que agregam valor ao produto final ou que sejam poupadoras, ou seja, capazes de aumentar as receitas ou diminuir os custos.

 

O valor dos bens está diretamente relacionado com a tecnologia disponível, entretanto, é indispensável saber usar este recurso plenamente. Busque em cursos ou no treinamento do próprio fornecedor do equipamento ou insumo, a ajuda necessária para operar ou extrair da tecnologia o melhor resultado.

 

 

GESTÃO DE PRODUÇÃO

 

 

3 - TRABALHAR SEM PLANEJAMENTO E CONTROLE DE PRODUÇÃO

 

O Planejamento e Controle de Produção é uma ferramenta para aumentar a competitividade, pois otimiza as atividades do empreendimento. Serve para coordenar o processo de produção, de forma que os produtos sejam fabricados com qualidade e na quantidade e prazos certos, auxilia na redução de custos operacionais e influencia na satisfação do cliente e, consequentemente, na lucratividade do negócio.

 

Para realizar o planejamento e controle da produção, a empresa deverá formular objetivos e traçar metas a serem atingidas, e para tanto, será preciso organizar os recursos humanos e físicos necessários para a realização das atividades propostas, para fazer o controle destas ações e para efetuar a correção de eventuais falhas.

 

 

4 - DEIXAR A GESTÃO DA QUALIDADE TOTAL PARA MAIS TARDE

 

A qualidade deve estar presente em todos os processos da empresa: na organização, na produção, na compra e venda de artigos, na gestão administrativa e pessoal e na área de desenvolvimento dos produtos.

 

Qualidade significa preocupar-se com o processo produtivo em todos os setores do empreendimento, para que se tenha um produto final de alta qualidade, cuidar da gestão dos custos de produção, com a segurança de garantir a fabricação de um artigo livre de qualquer tipo de retrabalho ou falha, além de um atendimento encantador ao cliente.

 

Algumas dicas de qualidade:

 

- Descarte: somente deixe o que é necessário para o trabalho no setor e na empresa.

 

- Organize: tenha um lugar para cada coisa e cada coisa em seu devido lugar.

 

- Limpe: limpeza é dever de todos. Sujou, limpou. Deixe sempre os locais de trabalho como você gostaria de encontrá-los.

 

- Mantenha a ordem: Trabalhar em um local onde todos se sintam bem é essencial para o rendimento das pessoas.

 

- Lembre-se de que o exemplo é o melhor dos ensinamentos.

 

 

5 - ENCARAR DESPERDÍCIO COMO NORMAL

 

Gerir perdas, procurando eliminá-las, influenciará no aumento do lucro das empresas do setor de confecção. Não é aceitável que ainda se tenha os níveis atuais de desperdício. Acabar com os desperdícios significa diminuir custos de produção, aumentar as vendas e a rentabilidade do empreendimento.

 

Muitas vezes, os empreendimentos não dão a devida atenção aos pequenos gastos, como a utilização do carro da empresa para sair para o almoço, o uso excessivo do telefone, o desperdício de matéria prima, a efetuação de um empréstimo com altas taxas de juros, o tamanho da carteira de clientes inadimplentes, a carteira de fornecedores com margem de negociação de antecipação e postergação de compromissos, entre outros.

 

Alguns exemplos de desperdício em nossos empreendimentos: lâmpadas ligadas, torneiras pingando, ligações telefônicas em horário de pico, uso do telefone para assuntos particulares, utilização da internet para atividades que não são relacionadas à empresa, má regulagem de equipamentos, desperdício de mão-de-obra e “layout” inadequado aos artigos fabricados, entre outros. São pequenas perdas, mas que somadas fazem grande diferença nos resultados.

 

Assim como o desperdício de insumos e materiais, outro componente que eleva custos é o desperdício de tempo consumido pelo retrabalho, ou seja, realizar o trabalho novamente para corrigir um serviço mal feito. Cada produto gerado pelo empreendimento com defeito é perda de dinheiro. Cada ida ao mercado sem uma estratégia de venda é perda de dinheiro. A dica central é “fazer certo da primeira vez”, isso economizará tempo e recursos.

 

 

GESTÃO DE PESSOAS

 

 

6 - INVESTIR POUCO NAS PESSOAS

 

Acreditar que já sabe tudo sobre o negócio de confecções. Humildade é uma atitude fundamental para se continuar aprendendo. Palavras convencem, exemplos arrastam. Profissionalismo e competência são necessários em todas as áreas da empresa, a começar pelos dirigentes, que devem ser o modelo. 

 

As pessoas constituem a alma de uma organização. O desenvolvimento dos colaboradores é uma grande vantagem competitiva para garantir sua permanência no mercado. Conforme um provérbio Chinês: “Se você quer um ano de prosperidade, cultive trigo. Se você quer dez anos de prosperidade, cultive árvores. Se você quer cem anos de prosperidade, cultive pessoas”.

 

Deve haver uma estratégia de capacitação interna bem definida e não apenas treinamento esporádico e sem foco. Treine e capacite a sua equipe o mais rápido possível, porque seus concorrentes, neste momento, estão fazendo exatamente isso. Todo o time da empresa: administração, vigilância, produção, direção, limpeza, etc., deve estar treinado e em sintonia na busca de resultados.

 

Programas de treinamento não podem ser vistos como custo operacional, mas um investimento necessário para que a estratégia empresarial seja bem sucedida. Investir no desenvolvimento de pessoas exige um profundo interesse da direção da empresa e nem sempre traz um retorno de curto prazo, mas cria as condições necessárias para que o empreendimento garanta a sua continuidade no longo prazo, mesmo que estes profissionais treinados não permaneçam nele para sempre.

 

7 - SELECIONAR MAL E NÃO VALORIZAR OS COLABORADORES

 

O momento da escolha de colaboradores é fundamental para o sucesso da empresa, pois as pessoas são as peças mais importantes de todo o sistema, portanto, a escolha não pode ser leviana, superficial ou apressada. Uma boa dica é sempre analisar, no mínimo, três candidatos, pois isso aumenta a capacidade de acerto na escolha.

 

Algumas dicas para seleção de novos colaboradores:

 

- Pergunte-se: que necessidade de pessoal você tem em número, prazo e perfil profissional?

 

- Converse com os candidatos, buscando informações de seu histórico, experiências profissionais e habilidades.

 

- Para isso, defina o CHA, que tipo de Conhecimento, Habilidades e Atitude o candidato deve ter.

 

- Informe como é seu método de trabalho. Esclareça todas as questões de funcionamento e remuneração. Defina bem as funções e responsabilidades do dia-a-dia.

 

Certifique-se de que as pessoas certas estão nas funções certas, promovendo o devido reconhecimento quando merecido. A promoção de ambientes motivadores, de alegria, bem-estar e reconhecimento profissional é sem dúvida um impulsionador de resultados positivos.

 

Cabe à empresa e aos líderes o compromisso com a criação de um ambiente harmônico, estimulante, transparente, de valorização e de justas recompensas, porque quando isso ocorre, naturalmente, resulta em um clima favorável ao comprometimento, à motivação, com ganhos para ambas as partes.

 

Um chefe pode obrigar um funcionário a fazer um trabalho, especialmente durante tempos economicamente difíceis, mas não pode obrigá-lo a entregar sua paixão e sua imaginação nesse trabalho.

 

É necessário definir e monitorar indicadores. Ter objetivo de trabalho diário é um fator de motivação e comprometimento com os planos da empresa. É importante na contratação deixar bem claro ao novo colaborador quais as metas mínimas que ele deverá atingir todos os dias. Estabelecer metas a atingir é fundamental para cobrar desempenho.

 

Algumas estratégias motivacionais:

 

- O discurso da empresa deve ser coerente com a prática.

 

- Praticar a comunicação interna de modo claro e objetivo.

 

- Ouvir e dar “feedback”, para que as pessoas saibam como estão realizando suas atividades e, assim, possam compreender a sua importância para a organização.

 

 

GESTÃO MERCADOLÓGICA

 

8 - SER MAIS VOLTADO PARA PRODUTOS DO QUE PARA MERCADOS

 

Tudo o que é criado é uma solução para alguém, em algum lugar, em algum momento, para resolver um problema específico. Os clientes não querem produtos, querem o que os produtos fazem por eles. Para buscar a diferenciação, o primeiro passo é considerar quais os atributos que o consumidor avalia no momento de realizar a compra. Mais importante do que o produto, a confecção e os acessórios, é o atendimento e o serviço agregado na venda, os quais proporcionam os maiores diferenciais.

 

9 - ACREDITAR QUE MARKETING SE RESUME AOS ANÚNCIOS E QUE PROPAGANDA É CUSTO E NÃO INVESTIMENTO

 

Qual é o valor de uma moeda no fundo do oceano? Nenhum, porque ela não está acessível. Um bom produto que ninguém conhece não será vendido. Investir num bom produto e cortar tudo que puder na comunicação, como fazem muitos confeccionistas, que tiveram como sua primeira experiência o chão de fábrica, não é um caminho sensato para quem almeja um dia ser grande. É certo que os recursos são escassos para quem está começando, porém, existem inúmeras maneiras de sua marca e as informações sobre seus produtos chegarem até ao público-alvo. Seja criativo!

 

Tenha muito cuidado com a escolha de quem vai desenvolver o seu logotipo ou fazer o seu site. Não caia na armadilha de acreditar que um bom site ou anúncio de seus produtos ou serviços podem ser criados pelo seu sobrinho ou pela filha da empregada, que acabaram de fazer um cursinho de corel draw.

 

10 - ACHAR QUE PESQUISA DE MERCADO É UMA BESTEIRA

 

Tomar decisões com base em “achismos” assemelha-se a uma caçada de olhos vendados. Os estudos de mercado auxiliam nas decisões de marketing.  Ações de marketing eficazes são tomadas com base no estudo dos consumidores. Sábios nunca confiam na intuição - eles confiam em testes.

 

 

11 - NÃO DAR A DEVIDA IMPORTÂNCIA À MARCA

 

A marca é uma promessa ao consumidor de que ele receberá aquilo que procura adquirir nos produtos. Assim, tão importante como desenvolver o melhor artigo, com as melhores tecnologias e características e disponibilizar o melhor atendimento, é trabalhar atributos positivos da marca. Neste sentido, é necessário que a identidade da marca e de todos os materiais de comunicação desenvolvidos pelo empreendimento, desde a embalagem até a nota fiscal, tenham uma identidade visual que favoreça a identificação por parte do consumidor.

 

12 - NÃO DAR A MERECIDA IMPORTÂNCIA AO DESIGN

 

A nova fábrica de vestuário deve vender singularidades e não similaridades. Passar rapidamente da fase da imitação para a criação.  Um dos principais aspectos relacionados com a produção de confecções, acessórios e calçados está no design dos produtos. Como os mesmos são componentes da moda, é fundamental que o aspecto estético venha atender às expectativas dos consumidores.

 

Cada vez mais os clientes, em especial o público feminino, valorizam o alinhamento do vestuário e acessórios com as tendências de moda, hoje transmitidas intensamente através dos veículos de comunicação, como televisão, revistas, internet, entre outros.

 

 

13 - NÃO DAR A NECESSÁRIA IMPORTÂNCIA PARA LOGÍSTICA E DISTRIBUIÇÃO

 

O objetivo da logística é assegurar a disponibilidade do produto certo, na quantidade certa, no lugar certo, na hora certa, para o consumidor certo, por um preço certo a um custo ideal. A utilização de representantes comerciais é importante para que o empreendimento possa atingir mercados pulverizados ou distantes, como o nacional. Quando a venda é concentrada em poucos e grandes clientes, é possível o atendimento direto pelos proprietários ou por meio da força de vendas própria.

 

GESTÃO FINANCEIRA

 

14 - ACHAR QUE NÚMEROS É COISA PARA CONTADOR

 

Muitos empreendedores passam por dificuldades por não saberem controlar e planejar suas atividades financeiras. Para realizar uma gestão financeira efetiva é fundamental que o empreendedor tenha conhecimento de toda a movimentação de recursos, pois “o que não se mede não se controla”.

 

Através do painel do carro, o condutor pode monitorar a situação do veículo: velocidade, nível de combustível, etc. Da mesma maneira, com os controles de movimentação financeira, há condições de saber exatamente qual é a situação financeira da empresa. Gastos rotineiros devem sempre ser questionados em relação à forma como acontecem e ao porquê de sua existência. Somente de posse dessas informações o gestor poderá antever situações e minimizar os riscos do seu empreendimento. Para isso, algumas ferramentas de gestão são essenciais para que a empresa saiba onde está sendo gasto o dinheiro:

 

- Registro de caixa (entradas e saídas)

- Contas a pagar e a receber

- Controle bancário

- Controle de estoque (matéria prima e produtos em processo e acabados)

- Fluxo de caixa

- Demonstrativo de Resultados – DRE

 

 

15 - PRATICAR PREÇOS BASEADOS UNICAMENTE NA CONCORRÊNCIA

 

O controle dos custos de produção é essencial para o empreendimento, para fazer a formação do preço de vendas dos seus produtos e para saber efetivamente a possibilidade de estar obtendo algum lucro com tal artigo ou serviço. Muitas empresas realizam a formação de preço de venda sem critérios, correndo o risco de perder dinheiro ou praticar preços muito abaixo dos custos ou elevados para o mercado.

 

Controlar os custos de produção envolve saber a capacidade de produção da fábrica, a necessidade de matéria prima utilizada em cada produto, o custo dos materiais aplicados, a quantidade de horas de pessoal e a quantidade de horas-máquina, além de custos que consideramos indiretos e que, muitas vezes, não são avaliados pelas empresas no momento da formação de preços, como o desperdício de matérias primas, retrabalho, depreciação, encargos sociais, entre outros.

 

 

16 - DEPENDER DE BANCOS

 

Antes de buscar um empréstimo bancário avalie a sua real necessidade. Em caso positivo, faça uma avaliação interna, para verificar se não existe possibilidade de você obter os recursos que precisa dentro da sua própria empresa.

 

O custo do dinheiro para financiar capital de giro no Brasil está entre os maiores do mundo. Procure andar com as suas pernas, pense duas vezes antes de pedir socorro para um banco. Analise se existem outras possibilidades de reduzir a necessidade de capital de giro adotando algumas medidas internas, como, por exemplo, atuando na diminuição dos estoques de matéria-prima, dos estoques intermediários e de produto acabado, redução dos prazos de entrega, diminuição de desperdícios de materiais, aproveitamento de capacidade ociosa da fábrica, cobrança de inadimplentes e realização de promoções de produtos, entre outras.

 

Tenha uma boa relação com os seus fornecedores. Em muitos casos, os fornecedores têm condições de “financiar” diretamente, aumentando prazos de pagamento e mantendo valores à vista. Não relute em vender um bem que não está gerando riqueza, para fazer frente aos seus compromissos. Avalie também, junto aos seus fornecedores, a possibilidade de alongar os prazos de pagamento ou fracionar as entregas, mesmo que para isso, seja necessário pagar encargos financeiros que, via de regra, são mais baratos que os cobrados pelos bancos. Seu cliente, indústria ou lojista, que compra sua produção, também pode ser uma fonte de recursos interessante, atuando na antecipação de créditos por compras futuras, pagando antecipadamente ou à vista, na entrega dos pedidos.

 

Quem nunca errou que atire a primeira pedra, afinal, errar e aprender com o erro é humano, porém persistir no erro é burrice. O ontem está na sepultura. O amanhã está no ventre. Hoje é verdadeiramente o seu tempo de mudar e fazer acontecer. Realizadas as mudanças necessárias, o seu sucesso será inevitável.

 

Soeli de Oliveira é consultora e palestrante nas áreas de marketing, varejo, atendimento e motivação do Instituto Tecnológico de Negócios. www.itnconsultoria.com.br – E-mail: soeli@sinos.net – Novo Hamburgo - RS